Este livro nasceu menos de uma ambição acadêmica do que da inquietação de um professor da Escola Bíblica Dominical.
Há anos preparo conteúdo bíblico para a Igreja — em sala de aula, em vídeo, em estudos de Escola Bíblica Dominical — e percebi, repetidas vezes, o mesmo sintoma: conseguimos falar muito sobre Cristo sem necessariamente apresentar Cristo. Pregamos sobre perdão, cura, família e profecia; contudo, o Senhor que sustenta cada uma dessas verdades aparece, com frequência, apenas como assinatura ao final do sermão, e não como seu centro vivo.
Foi nessa inquietação que reencontrei William Burt Pope, teólogo metodista do século dezenove, professor de teologia sistemática no Didsbury College e, mais tarde, presidente da Conferência Wesleyana britânica. Sua obra The Person of Christ: Dogmatic, Scriptural, Historical, publicada em 1875, não pretendia ser um tratado exaustivo — o próprio Pope a chamou de simples esboço, um roteiro para orientação do estudante. Mas esse esboço modesto guarda uma disciplina que a Igreja de hoje precisa recuperar: a recusa obstinada de separar a doutrina de Cristo da Pessoa de Cristo.
Este livro é uma releitura expositiva dessa obra — não uma tradução acadêmica, nem uma defesa erudita de Pope, mas uma tentativa de deixar que sua disciplina teológica volte a falar à Igreja de língua portuguesa, em prosa bíblica, doutrinária e devocional, sustentada sempre pela Escritura como autoridade suprema, e enriquecida por comentaristas clássicos que, como Pope, já provaram sua fidelidade ao evangelho através dos séculos.
É preciso dizer, contudo, que esta obra carrega também um desafio peculiar. Sua elaboração tomou como referência principal um livro escrito em inglês no século dezenove e dialogou com outras dezenove fontes igualmente em inglês, das quais foram extraídas, conferidas e trabalhadas citações que sustentam a exposição. Em condições ordinárias, uma tarefa assim exigiria uma equipe especializada, domínio pleno da língua inglesa, longos anos de pesquisa, revisão e comparação de fontes. No entanto, o Senhor permitiu que esse trabalho avançasse justamente pelas ferramentas que a providência colocou em nosso tempo: recursos de tradução, revisão, organização, compilação, edição e apoio visual, os quais, se usados com temor, critério e discernimento, podem servir também à edificação da Igreja.
Isso não diminui o labor humano envolvido. Pelo contrário, coordenar tantas etapas, revisar tantas camadas de texto, conferir referências, reorganizar ideias, selecionar citações, lapidar a linguagem e ainda pensar em ilustrações que ajudem o leitor a contemplar melhor a Pessoa de Cristo foi, por si só, uma tarefa exaustiva. Muitas das imagens, estruturas, verificações e possibilidades editoriais presentes neste projeto dificilmente poderiam existir sem o auxílio das grandes tecnologias disponíveis hoje. Ainda assim, tais ferramentas foram apenas instrumentos. A mão que sustenta a obra, a inteligência que a torna útil e a graça que lhe pode dar fruto pertencem ao Senhor.
Também não posso ocultar que este livro está sendo elaborado em um dos períodos mais difíceis da minha vida. Depois de já ter atravessado muitos anos de caminhada, quando as forças naturais parecem menores e os desafios se tornam maiores, vejo nesta obra não uma demonstração de capacidade pessoal, mas um testemunho da misericórdia de Cristo. A Ele atribuo todo mérito. A Ele toda honra e toda glória. Se algo nestas páginas puder trazer luz, correção, consolo, reverência e amor mais profundo pelo Filho de Deus, será porque o próprio Senhor quis usar um servo limitado para trazer novamente à vista o Personagem mais importante do universo.
A pergunta que conduz cada capítulo é a mesma que Jesus fez em Cesareia de Filipe, e que nenhuma geração pode responder por procuração: “Quem dizeis vós que eu sou?” O livro segue essa pergunta em seis partes — de Cristo antes de Belém ao Deus-Homem, da redenção à exaltação, da defesa histórica da fé à vida cristã que essa fé produz — sempre retornando à mesma Pessoa indivisível, verdadeiramente Deus e perfeitamente homem.
Não produzi este livro como teólogo profissional porque não o sou, mas como alguém que crê que a Igreja merece mais do que um Cristo reduzido — reduzido a tema moral, a figura histórica, a símbolo vago de espiritualidade ou a instrumento de discursos religiosos que já não preservam com zelo a antiga fé. Em nossos dias, a Pessoa de Cristo tem sido, por vezes, ensinada de modo impreciso até por aqueles que deveriam prezar pela ortodoxia. Creio, porém, que em muitos casos isso não nasce de má intenção, mas de ignorância, esquecimento ou falta de formação doutrinária sólida. Por isso, este livro não deseja ferir, mas despertar; não pretende substituir a Igreja, mas servi-la; não busca exaltar um autor humano, mas reconduzir o olhar do leitor ao Cristo das Escrituras.
Se ele servir para que um professor de Escola Bíblica prepare uma aula mais cristocêntrica, para que um pregador volte ao púlpito com a Pessoa de Cristo mais clara em mente, para que um simples leitor confesse, como Tomé, “Senhor meu, e Deus meu” com mais convicção do que antes, ou ainda para que uma pequena centelha de avivamento doutrinário e espiritual se acenda em algum coração, terá cumprido seu propósito.
Que o Espírito Santo, cujo ministério é glorificar o Filho, use estas páginas para esse mesmo fim.
Petrus Servus Domini
Professor da EBD
NOTA METODOLÓGICA E DE FONTES
Este livro segue uma disciplina editorial clara, que o leitor merece conhecer antes de avançar.
A Escritura é a autoridade primária e final de toda afirmação doutrinária deste livro. Nenhuma leitura de Pope, nem de qualquer comentarista citado, substitui ou supera o texto bíblico; toda doutrina aqui exposta pode e deve ser verificada na própria Bíblia.
A obra-base é The Person of Christ: Dogmatic, Scriptural, Historical, de William Burt Pope (1875). Pope funciona como eixo teológico e estrutural de cada capítulo — não como uma segunda autoridade ao lado da Escritura, mas como um guia confiável, testado por mais de um século de uso na tradição wesleyana, que ajuda a organizar e aprofundar o que a Bíblia já ensina. O leitor interessado na biografia e no método de Pope encontrará um trecho dedicado a ele no apêndice “A” deste livro.
Além de Pope, este livro recorre, com moderação, a comentaristas clássicos em domínio público — entre eles Adam Clarke, John Wesley, Joseph Benson, Thomas Coke, Daniel Whedon, Joseph Sutcliffe, Richard Watson, Frédéric Godet, Joseph Agar Beet, William Baxter Godbey, Ellicott, Keil & Delitzsch, A. T. Robertson, Marvin Vincent, F. B. Meyer e G. Campbell Morgan, além de Matthew Henry e J. C. Ryle e alguns recentes no apêndice “F”. Cada capítulo usa, no máximo, dois autores auxiliares por subtópico, sempre como confirmação ou enriquecimento da leitura central de Pope, nunca como substituto dela. Esses comentaristas estão disponíveis, em sua maior parte, em repositórios públicos de obras clássicas, como o CCEL (Christian Classics Ethereal Library) e o Internet Archive.
Por linha arminiana-wesleyana, entende-se aqui a tradição metodista clássica: evangélica, trinitária, cristologicamente ortodoxa e arminiana em sua doutrina da salvação.
Por escolha editorial, este livro utiliza como fontes textuais apenas obras clássicas em domínio público. Essa decisão preserva a verificabilidade das citações, a liberdade editorial do projeto e permite que qualquer leitor consulte gratuitamente as fontes mencionadas.
Onde uma citação literal de Pope ou de algum comentarista não pôde ser plenamente conferida no texto-fonte, optou-se por linguagem de resumo — “Pope observa”, “Pope entende”, “a tradição clássica reconhece” — em vez de aspas que sugerissem uma precisão não verificada. Nenhuma citação literal foi inventada para este livro.
Uma última nota, breve, sobre a versão bíblica e as abreviações: as citações bíblicas utilizadas neste livro seguem a ACF — Almeida Corrigida Fiel, edição da Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil — 1994/1995/2007/2011 —, tradução de João Ferreira de Almeida e possíveis citações da King James 1611. As referências bíblicas seguem a notação comum às edições em português — Gn, Êx, Mt, Jo, e assim por diante —; poucas abreviações técnicas, como cf. (“confira”), v./vv. (“versículo/versículos”) e séc. (“século”), podem aparecer ocasionalmente nas notas de rodapé, sempre em seu sentido corrente. Este livro não pretende ser uma tese acadêmica, mas uma exposição doutrinária para a Igreja. Onde a precisão acadêmica e a clareza para o leitor comum entraram em tensão, a clareza prevaleceu — sem jamais sacrificar a fidelidade à Escritura e à ortodoxia cristológica histórica.
COMO USAR ESTE LIVRO
Este livro pode ser lido de mais de uma maneira, dependendo de quem o lê.
Para o leitor devocional
Leia um capítulo por vez, com a Bíblia aberta ao lado. Cada capítulo termina com uma aplicação para a vida cristã; não a pule. O objetivo não é apenas entender melhor a Pessoa de Cristo, mas adorá-Lo mais corretamente.
Para professores de Escola Bíblica
Cada capítulo pode servir de base para uma aula ou uma série de aulas. Os textos bíblicos principais, listados no início de cada capítulo, podem orientar a leitura prévia da turma; os subtópicos literários podem se tornar os pontos de uma aula expositiva.
Para pregadores
A obra fornece estrutura bíblica, doutrinária e histórica para mensagens cristocêntricas. O Capítulo 32 trata especificamente de como pregar a Pessoa de Cristo sem fragmentar a mensagem em erudição solta — vale a leitura antes de transformar qualquer outro capítulo em esboço de sermão.
Para estudantes de teologia
O livro introduz, em linguagem acessível, categorias clássicas da cristologia — união hipostática, kenosis, communicatio idiomatum, as controvérsias patrísticas e conciliares — sempre explicadas antes de serem nomeadas tecnicamente. Os apêndices reúnem glossário, cadeias bíblicas e linha do tempo das controvérsias para consulta rápida.
Para produtores de conteúdo cristão
Cada capítulo pode inspirar estudos, séries, vídeos, carrosséis, roteiros e materiais apologéticos próprios — desde que a Pessoa de Cristo, e não apenas um tema cristão, permaneça no centro do material produzido.
NOTA AO LEITOR
Seja qual for o seu propósito ao abrir este livro, leia-o com a Bíblia aberta, em espírito de oração, e com disposição para aprender alguns termos doutrinários que talvez sejam novos. Você não precisa de formação teológica para acompanhar esta jornada — precisa apenas do mesmo desejo que moveu Pedro em Cesareia de Filipe: saber, com clareza, quem é Jesus.
ORAÇÃO INICIAL
Senhor Jesus, antes de iniciarmos esta jornada,
suplicamos ao Espírito Santo, cujo santo ofício é Te glorificar,
que ilumine cada página deste livro.
Guarda-nos fiéis à Tua Palavra, acima de qualquer leitura humana,
mesmo a mais cuidadosa.
Dá-nos humildade diante do mistério da Tua Pessoa,
coração disposto a adorar e não apenas a compreender,
e protege-nos de todo erro que diminua quem Tu és.
Que, ao final destas páginas, possamos repetir,
com mais convicção do que no início,
a confissão de Tomé:
Senhor meu, e Deus meu. Amém.