Um menino que aprendeu hebraico antes dos vinte
William Burt Pope nasceu em 19 de fevereiro de 1822, em Horton, na Nova Escócia. Filho mais jovem de uma família metodista, teve formação inicial modesta e itinerante. Ainda jovem, cultivou aquilo que se tornaria uma de suas marcas: familiaridade com línguas antigas e modernas. Estudou latim, grego, francês e alemão; depois de aceito como candidato ao ministério metodista, em 1840, avançou também no hebraico e no árabe. Um pastor wesleyano comum não precisava de tantas línguas. Pope precisaria delas para a obra que o aguardava.
O tradutor que conhecia os adversários por dentro
Ordenado em 1842, Pope passou por diversos circuitos pastorais, como era comum na formação itinerante metodista do século dezenove. Nesse período, consolidou uma reputação pouco comum entre pastores: tornou-se tradutor de críticos antirracionalistas alemães. Esse detalhe ajuda a explicar o método de The Person of Christ: quando Pope confronta as teorias alemãs de “depotenciação” do Logos ou as ideias de Schleiermacher, ele não está reagindo a resumos de segunda mão. Está respondendo a textos que leu e traduziu na língua original.
Vinte anos formando pregadores
Em 1867, Pope assumiu a cátedra de teologia sistemática em Didsbury College, Manchester, cargo que definiria sua carreira e que ocupou até 1886. Ali formou uma geração inteira de ministros wesleyanos. O reconhecimento acompanhou o trabalho: recebeu doutorados, presidiu a Conferência Wesleyana britânica e produziu obras que marcaram o metodismo de sua geração. Segundo registros biográficos, sua disciplina de trabalho era severa: começava o dia às quatro da manhã. Foi esse regime, mantido por décadas junto ao ministério pastoral, que permitiu a um único homem produzir tanto o Compendium of Christian Theology quanto o ensaio cristológico que se tornou base desta obra.
Um esboço que nunca pretendeu ser definitivo
The Person of Christ nasceu como discurso oral: a Fernley Lecture de 1871, conferência teológica anual do metodismo wesleyano britânico. Pope expandiu substancialmente o texto no Natal de 1874, acrescentando desenvolvimento bíblico e um extenso conjunto de notas ilustrativas, e publicou a edição ampliada em 1875. No prefácio dessa segunda edição, descreveu o próprio propósito com humildade: a obra inteira era apenas um esboço para orientação do estudante. A densidade real do ensaio, porém, mostrou que esse “esboço” continha uma das defesas metodistas mais robustas da Pessoa de Cristo.
Sua contribuição doutrinária mais característica foi sistematizar e defender a doutrina wesleyana da santidade. Embora The Person of Christ seja obra cristológica, não propriamente soteriológica, essa ênfase aparece discretamente ao longo do livro: na impecabilidade de Cristo, na integridade da natureza humana que Ele assumiu e na ligação entre a Pessoa de Cristo e a santificação real do crente.
O homem por trás do teólogo
Pope encerrou sua atuação docente em Didsbury em 1886 e faleceu em 5 de julho de 1903, aos oitenta e um anos. Seus últimos anos foram marcados por sofrimento pessoal, fato que deve ser mencionado com sobriedade, sem especulação. O homem que escreveu com tanta firmeza sobre o mistério e a glória da Pessoa de Cristo não foi poupado da própria fragilidade humana até o fim.
Talvez por isso valha a pena recuperar Pope hoje. Não porque tenha sido um teólogo infalível ou um homem sem dor, mas porque, mesmo carregando sua própria fragilidade, manteve os olhos fixos na única Pessoa capaz de sustentar qualquer um de nós: verdadeiramente Deus, perfeitamente homem, Senhor único e indivisível.