Livro virtual · Apêndice B

Glossário cristológico

Os termos técnicos reunidos aqui não substituem a linguagem bíblica nem pretendem tornar a fé mais complicada. Eles servem apenas para nomear, com precisão, verdades que a Escritura já ensina e que a Igreja precisou proteger ao longo dos séculos.

Cada entrada resume o sentido do termo e, quando necessário, indica onde o tema aparece no corpo do livro.

Adocionismo — Heresia que ensina que Jesus nasceu simples homem e foi “adotado” como Filho de Deus em algum momento posterior — no batismo, na ressurreição ou por mérito moral —, negando Sua filiação eterna.

Anipostasia / enipostasia — Termos técnicos aplicados à natureza humana de Cristo. Ela não possui personalidade independente própria, mas subsiste na Pessoa do Logos. Isso não significa humanidade incompleta, mas humanidade pessoalmente assumida pelo Filho eterno.

Apolinarismo — Heresia do século quatro que negava ou diminuía a alma racional humana de Cristo, substituindo-a pelo próprio Logos divino. Ver Capítulo 9.

Arianismo — Heresia que nega a plena divindade eterna do Filho, tratando-O como criatura superior, não como Deus verdadeiro de Deus verdadeiro. Foi condenada no Concílio de Niceia, em 325. Ver Capítulo 23.

Asynchytos, atreptos, adiairetos, achoristos — As quatro palavras gregas com que Calcedônia protegeu o mistério da união das duas naturezas de Cristo: sem confusão, sem mudança, sem divisão, sem separação. Ver Capítulo 25.

Communicatio idiomatum — “Comunicação dos atributos”: princípio segundo o qual aquilo que pertence propriamente a uma das naturezas de Cristo pode ser atribuído corretamente à Sua única Pessoa. Por isso, é correto dizer que “o Senhor da glória foi crucificado” (1Co 2.8), não porque a natureza divina possa morrer, mas porque a Pessoa crucificada é também verdadeiramente Deus.

Deus-Homem — Expressão usada para designar Cristo em Sua unidade pessoal de divindade e humanidade: uma só Pessoa, verdadeiro Deus e perfeito homem.

Docetismo — Heresia que negava a realidade da carne de Cristo, tratando Seu corpo humano como mera aparência. Já foi enfrentada pelo apóstolo João. Ver Capítulo 22.

Ebionismo — Heresia judaizante que negava a divindade de Cristo, considerando-O simples homem, ainda que extraordinário. É erro simétrico e oposto ao docetismo. Ver Capítulo 22.

Eutiquianismo — Heresia que funde as duas naturezas de Cristo numa só, comprometendo a distinção entre divindade e humanidade. Foi condenada em Calcedônia, em 451. Ver Capítulos 24 e 25.

Exinanição — Termo relacionado à kenosis, usado para descrever a humilhação voluntária do Filho na encarnação, sem perda de Sua divindade.

Gnosticismo — Movimento religioso do segundo século que, por seu dualismo entre espírito e matéria, tendia a negar que Cristo tivesse assumido carne real, recorrendo geralmente a uma concepção docética ou fantasmagórica do corpo de Jesus.

Hipóstase — Termo grego para “pessoa” ou “subsistência individual”, distinto de “natureza”. A natureza responde ao que alguém é; a hipóstase responde a quem alguém é. Cristo é uma hipóstase em duas naturezas.

Kyrios — “Senhor”. Na Septuaginta, o termo traduz o nome sagrado de Deus em inúmeras ocorrências. Isso torna teologicamente decisivo o uso do título para Jesus no Novo Testamento.

Kenosis — “Esvaziamento”. Em Filipenses 2.6-8, refere-se à humilhação voluntária pela qual o Filho assumiu forma de servo e velou Sua glória manifesta, sem deixar de ser Deus. Ver Capítulo 11.

Mesitēs — “Mediador”, aquele que está no meio. Termo central para a doutrina da mediação de Cristo (1Tm 2.5).

Monogenēs — “Unigênito”, único em Seu gênero, sem paralelo. O termo aparece de modo decisivo em João 1.14 e 1.18.

Monofisismo — Do grego monos, “uma só”, e physis, “natureza”. Doutrina de uma única natureza em Cristo, resultante da fusão entre o divino e o humano. Relaciona-se ao eutiquianismo.

Monotelismo — Controvérsia do século sete sobre se Cristo possui uma só vontade ou duas. A ortodoxia afirma duas vontades distintas — divina e humana — em perfeita harmonia, nunca em conflito.

Nestorianismo — Heresia que separa tanto as duas naturezas de Cristo que, na prática, cria dois sujeitos ou duas pessoas. Foi condenada no Concílio de Éfeso, em 431. Ver Capítulo 24.

Patripassianismo — Heresia que ensina que o próprio Pai sofreu e morreu na cruz, por não distinguir adequadamente as Pessoas da Trindade.

Sabelianismo — Heresia que trata Pai, Filho e Espírito Santo como três modos ou manifestações temporárias de um único Deus, e não como Pessoas eternamente distintas.

Socinianismo — Forma radical do unitarismo histórico, negando tanto a divindade de Cristo quanto a Trindade, e reduzindo Jesus a simples homem exemplar.

Subordinacionismo — Tendência de tratar o Filho como divino, porém inferior em essência ao Pai. A ortodoxia distingue subordinação na missão redentora de inferioridade de natureza.

Theotokos — “Geradora de Deus”. O título não afirma que Maria seja origem da divindade, mas que Aquele que nasceu dela, segundo a carne, era desde a concepção o próprio Filho eterno de Deus. Sua função original é cristológica, não mariológica. Ver Capítulo 24.

União hipostática — A união, numa só Pessoa, das duas naturezas de Cristo — divina e humana —, sem confusão, sem mudança, sem divisão e sem separação. É o termo técnico central da cristologia ortodoxa. Ver Capítulo 10.

YHWH / Yahweh — O nome próprio do Deus de Israel, revelado a Moisés (Êx 3.14). O Novo Testamento aplica a Cristo textos veterotestamentários originalmente referentes a Yahweh, como Romanos 10.13 citando Joel 2.32.